segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Nova Estória de Merda

Não perdem os meus Amigos pelo longo tempo de espera, questões de prisão de ventre, dir-se-á, questões de ausencia do meu imediato e do marinheiro manhoso da traineira, dirão, questões de ter estado a termas, a aguas, digo eu.
Amanhã poderão ler mais um relato das minhas viagens e deambulações pelos sete mares e 5 riachos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Histórias de Merda - 1

Nas minhas deambulações pelo Mundo vim algumas vezes a Aveiro, o porto que, como é sabido, é um cacho de problemas.
Numa das ultimas viagens vinha com uma carga de troncos de eucalipto para a celulose local e aproveitei para visitar um antigo colega de liceu que por ali mora e que, na altura das decisões, erradamente optou pelas engenharias em vez da vida do Mar. Merecia contudo que o visitasse, em miúdos correramos juntos seca e meca e vale de Santarém.
Depois de umas caras de bacalhau deliciosas em casa dele, despedi-me e rumei ao meu navio pela estrada da Mota, ladeada nesta época do ano de floridas e frondosas mimosas.
Fosse das caras, fosse das mimosas, fosse de outra coisa qualquer, a verdade é que me deu uma daquelas voltas à tripa no meio da Mata, uma volta das antigas, inadiável, magestática, tsunâmica, enorme.
Felizmente ando sempre prevenido e, mesmo naquele carro alugado, existia um imprescindível rolo de papel higiénico.
Parei o carro num entrada corta fogo, avancei resoluto para trás de uma acácia mais avantajada, arreei as calças, e naquela posição agachada e sem defesa apropriada, dispus-me a devolver para a natureza a parte mais fétida do meu ser, o que não é fácil escolher, adiante-se.
Estava eu naquele preparo e sou acossado por uma matilha de cães a ladrar à minha volta, e eu agachado.
--Fora, fora, gritava eu aos canídeos na minha posição de agachada indefesa .
E os bichos ladravam à minha volta incessantes.
Aparecem então os donos dos cães, caçadores, sendo um deles o mestre da traineira minha conhecida.
--Então sr Capitão, isso é coisa que se faça aqui !? Espanta-nos a caça homem !!!
Bem, lá tive outra vez de lhe prometer mais umas garrafitas de whiskie a bordo, a que o mestre não se fez rogado, e ele nunca se faz, para poder em paz acabar o iniciado, e sair daquela ingrata posição, se ainda não disse, agachada.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Baton Rouge

Dessa vez levávamos uma carga de rolhas para Baton Rouge.
Para quem não sabe, Baton Rouge é um prospero porto fluvial no Mississipi, caracterizado por ter a mais elevada concentração de mulheres com cus descomunais por metro quadrado em todo o planeta, quiçá mesmo a maior concentração dos Estados Unidos.
O Mississipi é um rio manhoso, pejado de lagartos, lampiões, curvas e casas de sortido fino, que fazem as delícias de um marinheiro que, depois de atravessar o Atlântico, navega naquelas águas turvas, mas calmas.
Chegado ao Porto de Baton Rouge fui a um saloon com o meu imediato beber um cerveja.
Lá fomos abordados por várias damas cujos cus, em conjunto, pareciam os air bags de três camiões da Rede Express, ou mesmo aos pneus do mil duzentos e vinte e quatro bonecos Michelin, todos juntos.
Confesso que não aprecio a grandiosidade descomunal de cus assim, mas enfim, típico é típico e, da mesma forma que como pimentos padron em Vigo ou mexilhões em Antuerpia , um cu sempre é um cu, e a cerveja estava de facto muito boa.
Quem não apreciou o Saloon foi um dos meus moços de convés que por ali passava e chamou a policia de costumes ao ver o meu imediato a afogar-se entre duas, talvez mais, carnudas naldegas Batonrougeanas.
Com a bófia a prender quem se apresentava pela frente, disse ao imediato, há que fugir, meu, há que fugir.
Chegados ao cais uma barreira policial impedia-nos de embarcar e da salvação.
Felizmente, num cais contíguo e escuro, estava atracada uma traineira portuguesa, cujo mestre logo nos fez um sinal para nos dirigirmos até lá.
E foi este herói luso que nos salvou da cadeia ianque, por conta da inconfidência dum dos meus moços de convés.
Despedi-o de imediato, e não fora a traineira ficar com ele, teria de regressar a casa de Alfa Pendular.
O drama é que fui obrigado a negociar com o mestre a estadia e a viagem do moço, tive de lhe dar uma boa parte da minha reserva pessoal do Gin que tinha guardado para uma doença.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Terceira Lição, A Estima

Tive em tempos um marinheiro, praticante vá, que fez algumas viagens comigo, e a quem tentei ministrar alguns conhecimentos de navegação, de balde embora.
O rapaz era serrano, percebia muito de rebanhos, alguma coisa de queijos , muito pouco de vinhos e nada de azimutes e agulhas.
Lá foi ganhando a mania de que queria embarcar, resultado de sonhos nas noites luarengas das serranias de Montemor e das leituras das aventuras ultramarinas do patrício Mendes Pinto.
Um dia, depois de fazer uns bons trinta e dois azimutes a tudo quanto era farol, boia, monte ou gaivota desgarrada, contas e recontas em papel milimétrico e ábacos especiais, refeitas e conferidas as contas, veio à ponte onde eu estava com o meu copo de gin, e disse-me:
--Meu Comandante, meu comandante, porque não podemos navegar nesta zona da carta?
Era onde as linhas se cruzavam nas suas intermináveis contas.
--Oh rapaz, não se pode navegar aí, porque se trata do Mercado do Bolhão, respondi.
Ficou muito zangado o moço de convés e despediu-se de nós, embarcando quase de seguida numa traineira, não a que nos salvava com alguma regularidade, mas numa outra que permanecia sistematicamente atracada na albufeira da barragem do Castelo do Bode, e que se dedicava à pesca do achigã, da carpa e de uma ou outra especie de agua doce que por alí passasse.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Segunda Lição- A Altura de um astro

Como já todos sabemos distinguir e numerar os meridianos terrestres, deixo-vos agora com uma lição de medição da altura de um astro.

Primeiro, e muito importante, escolhe-se um astro. Convém que seja visível a olho nu, ou pelo menos com um bom par de binóculos.
Então, escolhido e identificado o astro, aponta-se o sextante ao dito, tendo o cuidado de ter a parte de baixo do sextante apontada a qualquer sitio, de preferência ao horizonte, mas pode também ser ao varandim de estibordo, às retrancas das velas maiores ou mesmo à chaminé da embarcação, neste caso apenas se a dita for de propulsão mecânica.
Agora, com uma mão no sextante, a outra no cronometro e outra ainda no copo de Gin, espreita-se pela ranhura e grita-se alto e bom som (é da maior importância este clamor, pois dele depende a boa estima da posição e, também importante, a tradição e o saber)
“Sol à barca, cronometro à estimaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”
Deverá prolongar-se o aaaa do estima até ao limite dos pulmões, ou, se o marinheiro for de parcas saúdes, até onde a leitura da espreitadela der para gritar.
No fim deste grito, deverá o estimador gritar, de forma igualmente convicta, o tradicional “Foraaaaaaa”, prolongando com idêntico critério o aaaaa final do Fora.

Hoje em dia este ritual foi substituído por outro, de não menos impoortância técnica, mas de reduzido valor etnográfico, que consiste basicamente em olhar para o mostrador de um GPS ou de um Plotter.

Ainda me lembro de uma viagem que fiz em que, durante a observação dum astro segundo o ritual da marinha tradicional, perante um foraaaaa mais prolongado, tocamos na traineira que habitualmente nos salvava. Todavia foi o nosso cargueiro que soçobrou, talvez devido a uma má estiva dos garrafões que transportávamos desde o Porto de Leixões até Moçamedes e que, por volta do Cabo Branco, já metade da carga estava esvaziada por uma tripulação sedenta e ignorante, pois bebeu apenas os garrafões de estibordo, desequilibrando o navio de forma irrecuperável.
Felizmente a traineira safou-nos, não sem antes ter de prometer ao mestre metade do resto da nossa carga.