sábado, 15 de outubro de 2016

O nosso Piloto Manibelas, Parte II


Mas a conversa azedou.

Arribados a Kandang, o nosso imediato sr Pardal que inicialmente tinha  achado alguma graça ao nosso piloto, ao reparar num certo esgar algo malicioso na cara do rapaz a desembarcar, interpretou-o como gozo, e não gostou.

Vieram a lume discussões antigas nos bares da Malásia  e nos lupanares de Singapura, com o mesmo piloto, e daí até se ameaçarem mutuamente, foi um ápice.
Por sorte entrou naquele preciso momento na camarinha o Mestre Tobias que vinha fazer a sua visita ao sobrinho e, porque não dizê-lo, receber a sua ‘avença’ do nosso armador.

O Mestre Tobias tinha sido contratado pelo governo indonésio para formar mestres de traineiras para a pesca da sardinha no indico. Mas, com a sardinha não abundava por aqueles mares e , diga-se, também não era muito apreciada por aquelas bandas, tinha aberto, à sociedade com um general indonésio, uma casa de diversão nocturna que tinha alcançado grande fama e grande êxito entre os locais e também entre os embarcadiços que rumavam aquelas remotas paragens.

A calma e ponderação do Mestre Tobias eram proverbiais, também os favores que lhe devíamos o eram, e rapidamente pôs fim à querela ali gerada, e fomos todos juntos assistir a um espectáculo de danças e massagens orientais.


terça-feira, 13 de setembro de 2016

O nosso Piloto Manibelas

Pois.
Leva-nos esta saga a um piloto novo naquela viagem, era a sua primeira de longo curso, recém-saído da Escola Náutica.
Tipo certinho, fazia bem os pontos, sempre disponível e trabalhador, pontual nos seus quartos, daqueles a quem podíamos confiar o navio entre dois gins bebidos na ponte ou na camarinha dos oficiais.
As viagens de longo curso são isso mesmo, longas. Lê-se muito, conversa-se mais e bebe-se também um bocado.
O jovem piloto ainda era parente do Mestre Tobias, penso que sobrinho por parte da mulher, e foi-me recomendado especialmente pelo mestre, a quem devia vários favores, como tenho vindo a relatar.
Não seria necessária grande recomendação, pois o jovem piloto era um Marinheiro de primeira água e potenciava vir a ter uma carreira brilhante nos cargueiros dos sete Mares.
Contava-lhe, nos longos serões na ponte, os nossos naufrágios, os ataques dos piratas, as aventuras nos bares da Indochina, os encontros com a marinha de Guerra, enfim quase tudo. Omitia-lhe, naturalmente, os episódios em que o seu tio, o mestre Tobias, contracenava connosco, por pudor na maior parte, mais que por educação.
Navegávamos naquela noite com rumo a Samatra, estávamos na ponte eu, o jovem piloto Jorge e o nosso imediato, o Comandante Pardal.
Entre dois gins, o nosso piloto, meio encavacado, dirigiu-se a mim e ao imediato, dizendo que tinha uma pergunta difícil para nos fazer.

--Diz lá Jorge, pergunta à vontade rapaz.
--Tenho bergonha meu comandante ( O Jorge, piloto de excelência, era Minhoto e tinha um sotaque, não negligenciável, galaico-duriense )
--Oh pá, atirava-lhe o Pardal, deixa-te de merdas, faz lá a pergunta.
--Tenho bergonha meu comandante, é mesmo difícil.
--Olha lá, se não querias fazer a pergunta, não falavas nisso, diz lá…
No meio do Oceano, o tempo e o gin fazem abertas as pessoas, mas o Jovem Jorge, de sotaque galaico duriense acentuado, ainda estava renitente, hesitava.
Mas decidiu-se:
--Os meus comandantes, com a idade que têm, ainda têm tesão?
Que raio de pergunta, eu que frequentava os principais prostíbulos de Istambul a Singapura, que tratava por tu os maiores empresários das casas de diversão nocturna?! Mas contive-me e deixei a resposta para o nosso imediato.
--Sabes como é Jorge, já não é como foi, mas ainda vai dando para as curvas, enfim, falo por mim e pelo nosso comandante, vai indo razoavelmente ….
O nosso jovem piloto, sobrinho do Mestre Tobias, deu-se por satisfeito, ou pareceu dar-se, e lá continuamos na ponte, não sem antes ter pedido ao cozinheiro para nos trazer  mais um gin para cada um de nós.
Passaram-se mais umas centenas de milhas sem grande história, com Mar de almirante, quartos alternados e pontos feitos pelo Imediato sr Pardal e pelo Piloto sr Jorge.
Estávamos já a menos de 150 milhas do porto de Kandang e o cozinheiro sr Bolha tinha preparado um magnifico bacalhau abanado, receita que eu lhe facultara, e que ele fazia com mestria.
O nosso piloto estava sentado à mesa, meio encabulado, adivinhava-se tempestade.
Diz então o Sr Jorge, jovem e talentoso piloto de acentuado sotaque galaico duriense.
--Oh meus comandantes, tenho   uma pergunta difícil para bos fazer, mas esta ainda é mais difícil, tenho bergonha…
Porra que este gajo já chateia com as perguntas difíceis. Não fora sobrinho do Mestre Tobias, a quem tantos favores devia, e ia pela borda fora.
--Oh rapaz, disse-lhe o imediato sr Pardal, desembucha .
--Tenho bergonha meu comandante…
--Oh caralho, voltamos ao mesmo, se não querias fazer a pergunta não falavas nisso, disse-lhe eu, já visivelmente irritado e quase entornando um copo de PapaFigos que acabara de encher.
--Jorginho, não te amofines com o comandante, dizia-lhe o nosso imediato, sr Pardal, faz lá a pergunta difícil que nós respondemos.
O nosso jovem piloto de acentuado sotaque galaico duriense, enche o peito e…
--Os meus comandantes, com a bossa idade, ainda dão à manibela?
Agora era demais, mas o sr Pardal, muito mais calmo que eu, usou da palavra, já que eu e o cozinheiro sr Bolha, estávamos caladinhos, os dois devíamos muitos favores ao tio do jovem piloto, o Mestre Tobias.
--Pois é rapaz, nunca percas o habito. Sabes, amanhã podes precisar e depois não te lembras como é, sentenciou o nosso imediato.

PS:
Do nosso piloto Jorge, Minhoto de acentuado sotaque galaico-duriense, recebemos a seguinte rectificação, que, com a devida vénia, passamos a transcrever:
"
Bom dia meu Comandante!
Da análise à história, solicito que seja retificada. Deve ficar bem referido que as minhas perguntas foram feitas no seguimento de um jogo que o meu Comandante propôs, que foi o jogo das perguntas difíceis. Como eu era o mais novo, tive de ser o primeiro a fazer a pergunta, que foi a seguinte "O meu Comandante ainda dá à manivela? ".
O meu Comandante respondeu " Nunca deixes de fazer o que podes vir a precisar." Quando fizeres a retifição, publica.
Abraço
"

domingo, 11 de setembro de 2016

O Movimento Termalista



O meu amigo Veiga mantêm um blog, o Ventosga, dedicado a temas náuticos .
O presente estudo não se enquadra na hidro temática, pelo que me solicitou a publicação no meu espaço, o que faço com muito gosto.

O movimento termalista

1-As origens
São remotas as origens do movimento termalista, remontando mesmo ao tempo dos faraós. São conhecidos vestígios de fontanários no antigo Egipto junto às pirâmides, onde os faraós se banhavam em leite de burra temperado com rum e sumo de ananás, numa bebida que ficaria, séculos mais tarde, conhecida por pinha colada.
Esta bebida, óptima no tratamento de joanetes de que os antigos egípcios sofriam muito, não  faria no entanto grande êxito, apesar das suas propriedades curativas, porque naqueles remotos tempos não tinham ainda imaginado juntar-lhe gelo, talvez porque a técnica dos frigoríficos ainda não estivesse muito desenvolvida.

Os romanos herdaram a tradição egípcia, fundando termas por tudo quanto era sitio conhecido naquela época, sobretudo no entanto em Roma, circundada de fontanários por todos os lados. Naquele tempo era fácil chegar às termas porque, apesar dos GPS ainda estarem nos seus primeiros tempos, os termalistas não se perdiam, bastava-lhes tomarem um caminho, qualquer que ela fosse, porque, como se sabe, todos os caminhos vão dar a Roma.
Os romanos sofriam muito de unhas encravadas, derivado das sapatilhas que usavam, as caligae, de técnica sapateira  muito deficiente. As termas mais usadas eram assim aquelas que se adequavam aquele mal dos pés. Foram assim criadas as famosas termas de pizzas e lasanhas, muito frequentadas pela sociedade romana da mais fina estirpe.

2 – Em Portugal
Os portugueses sempre foram grandes entusiastas do movimento termalista, até porque sempre sofreram das mais variadas maleitas, tais como espondilose, queda de cabelo, bicos de papagaio e penariços, tudo doenças facilmente tratadas em qualquer fontanário digno desse nome.
O nosso primeiro rei, Afonso Henriques, fundou e frequentou as termas de São Pedro do Sul, famosas na vitela de Lafões com tinto do Dão, trazendo para a simpática vila beirã toda a corte, cortezãs, éguas e cabras, fundamentais para a saúde sexual dos portugueses e portuguesas de então.
D.José e o seu primeiro ministro também frequentavam várias termas, das quais destacamos as famosas termas de Palmela com o queijo de Azeitão e o Moscatel roxo, fundamentais  para a cura da gota e do reumatismo.

3 -A Actualidade
Ficaram celebres  as visitas do grande António Silva às termas do Cartaxo, estas apropriadas aos tratamentos das enxaquecas e penariços.
Os portugueses agora frequentam mais as termas do Alto Douro que se tem especializado nos últimos tempos e criado fantásticos fontanários.
Eu próprio ainda há pouco fiz umas termas em Chaves onde constatei a excelência do seu presunto, das suas postas de carne e dos seus enchidos. O tratamento faz-se à vontade do doente, sendo apenas necessária a apresentação da prescrição médica, que pode, no entanto, em grande tradição termalista, ser conseguida na altura. O sr Padre Fontes de Vilar de Perdizes, por exemplo, nas termas de Chaves, pode facultar aos seus pacientes, a devida e necessária prescrição dos tratamentos a efectuar.
Também muito conhecidas e frequentadas as termas galegas de Baiona onde se podem encontrar múltiplos e variados fontanários, ricos em Ribeiro, Alvarinho,  polvo à galega e variado de marisco, especialmente indicados para as maleitas dos pés, sobretudo os joanetes.
Mais perto de Aveiro, óptimas para as doenças do forno intimo tais como parasitas nas partes baixas, borbulhas na cara e frigidez feminina, temos as termas da Mealhada, com o seu  tinto bruto e leitão assado.
Infelizmente aqui é obrigatório beber meio copinho de agua ao fim da tarde, bebido no entanto às escondidas e de olhos fechados para custar menos.
Espero desta forma ter contribuído para um maior esclarecimento do que é o movimento termalista e dessa forma tornar as vidas dos meus amigos mais fáceis e mais agradáveis.

 

Madame Veiga  nas termas, claramente  aborrecida por não conseguir
 ir ao fundo nas tépidas aguas medicinais.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

A Combinação


Ainda não me tinha refeito da ultima das tragédias, que no meu caso são, habitualmente, marítimas, e já me via envolvido noutra, sendo que cada uma me vai deixando mais agastado e desgostoso com a minha difícil vida de marinheiro.
Pois convidei uma senhora de virtude, obviamente sem o conhecimento de Madame Aragão, para umas quantas brincadeiras no meu cargueiro, que estava ele amarrado e tranquilo ao cais da Ribeira Velha, num dos portos por onde costumo fazer cabotagem.
Tudo corria pelo melhor, com brincadeiras assaz acrobáticas e divertidas,  sem aditivamento, o que muito me orgulhava, quando nos lembramos de tomar um chá na cozinha do cargueiro, sendo que tive o cuidado prévio de dispensar o cozinheiro, para maior recato e tranquilidade.
Ao acender o fogão, por problema que ainda não identifiquei,  deflagrou-se um violento, mas não descontrolado, incêndio.
Embora controlado e localizado, não deixou de assustar e, sobretudo, incendiar a combinação da minha companheira de ocasião.
A senhora de virtude entrou em pânico e vá de fugir de forma descontrolada pelo convés, soltando gritos estridentes e altos, que chamaram a atenção a tudo que era estivador que aquela hora por ali estava.

A dama fugia histérica, com a combinação ligeiramente chamuscada, nada mais que isso, pelo portaló e pelo cais e não havia discurso ou palavras que a chamassem à calma e à razão.

Azar dos Távoras, passava àquela hora e naquele local, a brigada de costumes da PSP que, perante aquele espectáculo, deteve a dama de virtude e de seguida, como ela contasse tudo o que tinha acontecido, entrou a bordo e me deteve a mim.

Bem argumentei que era o capitão e que estava numa propriedade privada, que a senhora estava mais assustada que chamuscada, de nada me adiantou. A imagem da dama, em combinação, aos gritos pelo cais, foi determinante, tudo para a esquadra.

Já me via em trabalhos maiores, pois o armador era um tipo conservador, daqueles que ia à missa todos os domingos, quando me cruzei, à entrada da esquadra, com o mestre Tobias que tinha ido levar uma caldeirada de lulas ao sub chefe, de quem ainda era parente.

Cheguei de imediato à fala com o Mestre, pois a minha delicada situação assim o exigia, apertado pela ideia do conhecimento do escândalo pelo armador e, não menos grave, pela Madame Aragão, mulher tão estimada como de fígados biliosos e possuidora de não negligenciável  força física, capaz de me por com a cara à banda com a maior das facilidades.

Bem, o Mestre Tobias dispôs-se  a ajudar-me e falar com o sub chefe, ainda seu parente, mas tive de lhe prometer entregar uma parte substancial da minha reserva Douro Papa Figos 2011, que tinha guardada para uma doença.

Desta ainda me safei, embora com custos elevados e com a minha reputação de homem austero posta em causa. Os estivadores passaram a olhar-me de lado e o armador, talvez avisado por alguém mal, por certo mal intencionado, começou a fazer me perguntas fora do contexto que a muito custo conseguia desviar para outros assuntos.

domingo, 9 de agosto de 2015

Um Espanhol na Sopa




Apesar de estar neste momento a gozar um muito curto período de férias, bem merecidas diga-se, antes de largar para levar uma carga de pezinhos de porco preto para Malaca, onde são muito apreciados, juntamente com unhas de chiuáua, lembrei-me de aqui narrar uma das minhas desventuras num dos muitos portos deste mundo afora.
Estava eu a começar a jantar, juntamente com o meu imediato, num bar mal afamado da Gafanha da Nazaré, em Portugal, paredes meias com uma não menos afamada casa de diversão nocturna, o Moinho Velho, sentado numa mesa a comer uma sopinha quentinha que muito bem me estava a saber.
O bar em causa era uma espécie de um longo corredor, com um balcão a todo o comprimento, onde outros marinheiros dos sete mares malhavam os seus copos nas paragens naquele porto.
Mesmo ao meu lado, a beberem umas cervejas, estavam três espanhóis, já um tanto entornados, diria eu.
Ao levantarem-se, desequilibraram se pelo efeito dos alcoóis penso e, sem mais, caíram me na sopa.
Já é galo, pensei, a sopa até me estava a saber tão bem, a toda a gente caiem moscas na sopa, só a mim me caiem espanhóis, phoenix.
O meu imediato que, desde que foi despeitado por uma bailarina espanhola num bar de Singapura, tem uma malapata contra castelhanos e afins, levantou a mão e assapou uma galheta, mais sonora que efectiva, no espanhol que ainda se limpava do macarrão e dos feijões da sopa onde caíra.
O acto expontâneo e irreflectido do meu imediato gerou uma sessão de bofeteada ibérica sem precedentes naquelas paragens.
Bem, sem precedentes sem precedentes não, estou a lembrar me de outra, com marinheiros ucranianos em Southampton que meteu até os british grenadiers para separar as partes em contenda.
Esta foi, no entanto, das grandes e acabou por meter a Guarda Republicana que levou tudo preso para a charola, uma chatice.
Não fora o sargento da Guarda ser primo em segundo grau da senhora que faz a limpeza da casa do Mestre Tobias da traineira, e ainda hoje estaria a apodrecer nos calabouços da GNR.
O aborrecido é que o favor me custou duas arrobas de pezinhos de porco preto que tive de retirar, sem ninguém ver, da carga que estavamos a fazer.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Canoagem



Nem só de grandes cargueiros foi feita a minha carreira de marinheiro. Ainda na Escola Náutica praticava, embora não amiúde, alguns desportos ligados ao meio hídrico, remo e canoagem, tinha dias.

Uma altura houve em que as irreverencias da juventude me levavam para o Mar, ao fim da tarde, num K2 feito por mim, junto com um amigo  e, entrando na praia, saíamos para o largo umas boas 2 ou três milhas, a pagaiar entre as ondas, inconscientes aos perigos a que nos expúnhamos, pela força das correntes e dos ventos que, por vezes, nos arrastavam mais para o largo do que nós pretendíamos.

Duma dessas vezes fomos acompanhados por um amigo que, nesses anos, andava no seminário a dar razão a uma intensa vocação mística e que se tornaria depois num eminente padre católico, pároco de uma freguesia da Figueira da Foz, o Jeremim Barreiros, latinista de primeira linha e autor de inúmeros estudos teológicos que ainda o guindarão ao bispado, quiçá mesmo ao arcebispado.

O Jeremim seguia num K1 do seminário e eu e o Rogério no nosso K2 habitual.
Levanta-se então forte temporal com vento rijo de SW e trovões e relâmpagos de arrepiar.
--Porra merda que isto está fodido, digo eu algo amedontrado.
--Não digas palavrões Vasco, atira-me o Jeremim, se eu fossa a Deus mandava já um raio que te fulminava “Ad Raius asneirolas mandaris”
--Vai te catar Jeremim, vai apanhar nos entrefolhos caralho, pagaia e cala-te, dizia o Rogério a pagaiar como se não houvesse amanhã para escapar à tempestade e chegar a terra.
--Rogério, põe tento nessa língua irmão, se eu fosse a Deus mandava já um raio que te fulminava ”fulminarae rapidus caralhadis dixit deo”
Nisto ouve-se  um trovão descomunal, um raio cai dos céus e fulmina o Jeremim, que ia mesmo ao nosso lado.
Uma voz rouca, tonitruante  e muito forte  entoa então dos céus e diz: “FODA-SE FALHEI…”

O Grande Arquitecto disse de sua justiça, apontou para mim e para o Rogério mas  acertou no Jeremim que, feliz e prontamente assistido, recuperou do choque eléctrico divino.
Quem nos assistiu foi o Mestre Tobias que andava à pesca do robalo na rebentação junto à praia e vendo o nosso colega chamuscado, o recolheu e transportou ao Hospital.
Tivemos de lhe dar umas garrafitas que tínhamos para a merenda, mas valeu, salvou a vida ao Jeremim que prosseguiu a sua carreira eclesiástica, brilhante, diga-se..

domingo, 8 de março de 2015

Uma Regata em Buarcos




É sabido que o Mar para mim é uma opção profissional, sou Capitão de Longo Curso, faça embora, de tempos em quando, umas viagens de cabotagem, aliás já aqui narradas.
Uma vez, um amigo, há já uns tempos, convidou-me para fazer parte da sua tripulação numa Regata na baía de Buarcos,  na Figueira da Foz.

Foi uma sensação estranha fazer parte de uma tripulação em que não era eu o comandante, mas Regata não é de facto a minha praia e o veleiro estava bem entregue. Levei no entanto o meu imediato, o sr Bolha, que iria de moço de cozinha, face aos seus méritos com os tachos e caçarolas.

Largamos da Marina da Figueira já perto da hora do almoço, o que fez com que o nosso imediato/moço de cozinha, o sr Bolha, iniciasse logo os preparativos para a refeição, naquele dia um rizoto de bacon e cogumelos que, dizia ele, era uma receita que lhe tinham dado no porto de Nápoles, onde tínhamos feito escala há duas ou três semanas.
Os veleiros evoluíam em manobra da largada, o meu amigo fazia leme, eu auxiliava nos cabos e o moço de cozinha preparava o rizoto para o almoço.
Finalmente a largada foi dada e nós seguíamos, garbosos, para a bóia de barlavento, em bolina cerrada.

Nessa derrota, pela inclinação que levávamos, o sr Bolha entornou, por duas vezes, o rizoto na antepara que separava a cozinha do salão. Gritava como se não houvesse amanhã, queria que colocássemos o veleiro direito para ele poder concluir o rizoto. Ora tal não era possível, sob pena de nos atrasarmos na corrida para a bóia de barlavento.
Mas a terceira desgraça acontecera, pela terceira vez o rizoto, apesar da báscula do fogão, entornara-se pelo chão.

O skipper, face à tragédia que se avizinhava, ficarmos sem almoço, diz através do VHF que íamos parar um pouco a competição para concluir o rizoto e, já agora, almoçar.
O presidente do jurí da Comissão de Regatas era, nem mais nem menos, o Mestre Tobias que, nas suas horas vagas e como hobbie, era júri de Regatas de Vela.
Aproximou-se logo do nosso veleiro, amarrou o barco do júri ao nosso e abotoou-se com o nosso rizoto todo, mais duas garrafinhas de Esteva Tinto 2011 que tínhamos guardadas para a merenda.


Ainda por cima desclassificou-nos, não nos mostrando em parte nenhuma do Regulamento, uma regra que fosse que nos proibisse de comer rizoto numa regata e muito menos o poder de confisco do Comité de Regatas aos rizotos das tripulações em competição,